É verdade, finalmente chegou aquela altura do ano em que o cheiro a sardinha assada na brasa suplanta tudo o resto em Lisboa, em todas as praças há um arraial, qualquer garagem se torna um restaurante para o qual é preciso fazer marcação, um peixe ao qual ninguém liga o resto do ano inteiro passa a custar no mínimo 1,30€ a unidade, pessoas compram manjericos como se não houvesse amanhã, outras vestem-se com lantejoulas e descem a Avenida da Liberdade a pé, em frente a uns milhares que se deliciam com o espectáculo...
Tudo isto é verdade mas quem nunca experimentou comer uma sardinha no pão em pé, acompanhada por uma cerveja ou sangria, enquanto ouve uma qualquer música de bailarico e fala com pessoas que acabou de conhecer... bem tal pessoa está a perder uma das melhores facetas da nossa bela Lisboa e será sem dúvida uma pessoa mais pobre sem esta experiência.
De qualquer modo, um relato da minha noite foi prometido nestas páginas, e como eu sou um homem que cumpre as suas promessas aqui vai ele, um pouco resumido que a noite começou às 19 e acabou às 16 do dia seguinte mas tendo de tudo com o que o Santo António me presenteou este ano.
Como já vos disse, antes das 19 horas já me encontrava a caminho do Cais do Sodré, num metro que crepitava de vida mas que no Rossio ficou completamente vazio, sim, a maioria das pessoas adora mesmo ir ver as marchas e meter-se em sítios onde não conseguem andar 50 metros em menos de 15 minutos, vá-se lá saber porquê.
Chegado ao meu destino procedi ao encontro de alguns amigos que por mim esperavam no Irish onde iríamos dar inicio às hostilidades, e duas horas de conversa bem regada depois seguimos nós a pé em direcção a Alfama, apanhando mais alguns retardatários pelo caminho que a nós se juntaram na esperança de encontrarmos um sitio onde nos deliciarmos com o aquele petisco que vos falei anteriormente, a sardinha assada.
Continuámos caminhando, conversando, bebendo, dançando, jantando de pé, conhecendo pessoas novas, passando pela rua de São João da Praça, pela igreja de São Miguel, pelo pátio de Alfama, sempre com um sorriso nos lábios e uma alegria que nesta noite é por demais contagiante... perto das três da manhã o grupo emagreceu consideravelmente quando a maioria resolveu que eram horas de ir dormir, mas os resistentes resolveram seguir em frente visitando Santa Catarina, depois a Bica, vendo o nascer do sol em Alcântara, seguindo até Algés, onde ia o sol já alto pelas 14 da tarde, iniciei o regresso a casa... uma hora e meia de caminho depois cheguei, a cheirar a sardinha, cansado... mas contente.